domingo, 24 de março de 2013

O QUE SE ESPERA DO NOVO PAPA



Tarcísio Brandão de Vilhena

O Imperador Constantino, quando adotou o Cristianismo como a religião oficial do Império Romano, não imaginava o mal que esta adoção iria causar à religião de Cristo. Foi o inicio do mais nefasto processo de desvirtuamento e de corrupção das ideias pelas quais Cristo morreu na cruz.
Com a queda do Império Romano, os Papas tomaram para si o título que anteriormente pertencia aos imperadores romanos - Máximo Pontífice.
O que se passou nesses 2.000 anos na Igreja Católica foi a mais dominante forma de apostasia cristã do verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo e da verdadeira proclamação da Palavra de Deus.
Eugenio Pacelli, o único romano eleito papa até hoje, escolheu o nome de Pio XII para governar a Igreja como se fosse um imperador. E assim o fez entre 1939 e 1958. Antes de morrer, distribuiu títulos de nobreza a seus parentes mais próximos. Com não menos imponência, os Papas que o precederam conduziram a Igreja.
João XXIII, eleito para suceder Pio XII, assombrou a todos quando convocou o Concílio Vaticano II. Tamanho foi o espanto dos Cardeais que eles o quiseram depor. O cardeal Giuseppe Siri, que era então arcebispo de Gênova, reuniu Cardeais para estudar a possibilidade, segundo o Direito Canônico, de depor João XXIII.
Albino Luciani, ex-patriarca de Veneza, escolheu o nome de João Paulo I para governar a Igreja como o pastor que sempre procurara ser, independente de seus títulos e posição. Na tarde que antecedeu sua morte, 33 dias após a sua eleição, reuniu Cardeais da Cúria e falou sobre seus planos. Estava decidido, simplesmente, a ir morar num bairro operário de Roma, levando com ele os Cardeais que desejassem ir. Reformaria a Cúria, organismo que administra a Igreja, e entregaria os palácios aos cuidados de uma organização internacional.
Uma das freiras que sempre o acompanhavam contou que ouviu os gritos dos Cardeais trancados em uma sala com o Papa, discutindo o assunto. Na noite daquele dia, João Paulo I foi dormir sem ver televisão, como de costume. Preferiu ler um livro. Amanheceu morto.
Em um artigo, Ricardo Noblat narra que, no início dos anos 70, dom Hélder Câmara, então arcebispo de Olinda e Recife, foi a Roma para uma audiência com o papa Paulo VI. Os dois eram amigos há mais de 20 anos.
"Santidade, posso confiar ao senhor as minhas angústias?” – perguntou dom Hélder. Paulo VI respondeu que sim.
"Santidade, por que a Igreja não volta às suas origens? Por que tantos palácios, tanta ostentação, tanta riqueza? Por que Vossa Santidade tem de viver como se fosse um rei?”
O papa ouviu calado o desabafo de dom Hélder.
“Posso lhe dar um conselho, Santidade? Não me leve a mal. Mas abandone tudo isso. Acabe com essa pompa. Entregue as riquezas da Igreja para alguma entidade administrar. Ou então venda o que deve ser vendido e reparta o dinheiro com os pobres. Vá morar modestamente numa pequena Igreja. E seja, antes de tudo, um pastor. Livre-se de tantos outros títulos que tem.”
Quando dom Hélder se calou, Paulo VI pôs as mãos dele entre as suas e respondeu, sem disfarçar a emoção:
“Como eu gostaria de poder fazer isso, dom Hélder! Como eu gostaria! Mas não posso! Não posso.”
Os dirigentes da Igreja Católica tudo têm feito para manter a Igreja ancorada na Idade Média. Por qual motivo? A resposta nos remete aos fundamentos que deram origem à Igreja de Cristo, distanciando-a da Igreja primitiva, em que todos participavam com direitos iguais e preservavam sua origem doutrinária e religiosa.
A Igreja tem medo de Cardeais jovens. A maioria dos nomeados são anciãos. Parece esquecida que Jesus era "Papa", quer dizer, profeta e evangelizador, com apenas 30 anos. E que o mataram na flor da vida. E que o poder, tanto religioso quanto civil, tombou diante dele.
A verdade assusta o poder, e assusta a Igreja, na medida em que ela - Igreja - se mescla e se confunde com o poder mundano.
Para reconduzir a Igreja às suas origens, o novo Papa se defronta com perigosos e inevitáveis desafios. Terá ele coragem de dizer "dai a Deus o que é de Deus e a Cesar o que é de Cesar”? O Banco do Vaticano e suas transações em paraísos fiscais, a lavagem de dinheiro da Máfia, e as manobras da Cúria para influenciar os parlamentos, são coisas de Cesar ou de Deus?
Será capaz de uma atitude severa contra os abusadores de crianças, ao invés de esconder ou minimizar os escândalos de pedofilia na Igreja, que segue defendendo hipocritamente o celibato obrigatório?
Será capaz de abrir as portas da Igreja para fiéis e infiéis, católicos ou não, de todas as tribos de fé e de ateísmo do mundo porque, como dizia Jesus, em seu Reino cabem todos e todos são igualmente dignos de ser considerados filhos de Deus? Será capaz de proclamar que todos os teólogos condenados ao ostracismo por seus antecessores, todas as vítimas da Congregação para a Doutrina da Fé estariam livres para seguir investigando com liberdade de espírito o poço inesgotável da verdade revelada?
E, por fim, será capaz de derrubar as mesas do Templo, de expulsar dali os que fazem da Igreja um jogo de negócios, às vezes tão sujo que tem provocado suicídios e assassinatos?
O que fará Francisco, o novo Papa, quando terminar de ler a íntegra do relatório de pouco mais de 300 páginas que hoje está trancado em um cofre? Encomendado a três Cardeais por Bento XVI, o relatório informa sobre a conduta nada imaculada de religiosos pelo mundo afora.
Francisco atuará apenas para exorcizar as manifestações mais ostensivas do demônio, ou será capaz de surpreender o mundo, convocando um concílio para dar novo rumo à Igreja? Ou se quedará fraco e acuado até seu pontificado chegar ao fim?




quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A Renúncia de Bento XVI e os caminhos da Igreja Católica

Tarcísio Brandão de Vilhena

 
São vários os comentários e especulações sobre a renúncia de Bento XVI e o novo Papa a ser eleito. Artigo de um teólogo intitulado: “A Igreja muda ou acaba”, é uma constatação de quem tem conhecimento e autoridade para dizê-lo. O artigo ainda diz que a atual estrutura do catolicismo constitui uma traição à igreja primitiva em que todos participavam com direitos iguais.

O que caracteriza a Igreja Católica é o poder. Desde o período feudal que a Igreja Católica se despontou como grande proprietária de terras, acúmulo de riquezas e concentração de enorme poder. O comando dessa estrutura, fortemente hierarquizada, ao estilo monárquico, concentra-se na mão do Bispo de Roma, o Papa. Com o passar do tempo, a Igreja Católica foi se vinculando cada vez mais às coisas temporais afastando-se de sua origem doutrinária e religiosa. Aqueles que se opunham à Igreja, pela concentração de poderes materiais e não se submetiam à autoridade do Papa, os chamados hereges, foram combatidos com extrema violência pela Igreja Católica e, após a organização do Tribunal do Santo Ofício, no século XII, o julgamento chamava-se Inquisição do Santo Ofício. Milhares de pessoas foram condenadas e executadas pelos tribunais da Inquisição, queimadas vivas.

No século XVI houve um enorme movimento dentro da comunidade Católica, contra a interferência da Igreja Católica no mundo material, e a criação de dogmas, regras e disciplinas, unicamente para manter o poder temporal e estendê-lo às pessoas. Desse movimento originou a Reforma Protestante, preconizada por um frade Agostiniano, Martinho Lutero e pelo pregador Calvino. Foi um protesto contra os abusos, as atrocidades e os desmando da Igreja Católica.

David Yallop em seu livro "Poder e Glória", narra: “a Igreja que João Paulo I herdou havia há muito se distanciado da Igreja de Cristo. O Vaticano controlava uma riqueza imensa. Erigida sobre privilégios especiais a riqueza do Vaticano era ocultada por um sistema de contabilidade antiquado e obscuro, ferozmente negada por seus porta-vozes. Em 1970 uma estimativa suíça, colocou o capital produtivo do Vaticano em 13 bilhões de dólares, excluindo-se os vastos bens globais de propriedade do Banco do Vaticano”.

Ainda segundo o livro, acordos secretos como o que foi celebrado em 1933 com Hitler no qual a Alemanha nazista repassava ao Vaticano mensalmente uma soma em dinheiro, o chamado “imposto da Igreja”, demonstra o ambiente político da cúpula da Igreja. Evidente que foi um acordo bilateral. Hitler, um ateu confesso, não seria capaz de tamanha generosidade.

João Paulo I cujo pontificado foi de apenas 33 dias, muitos sustentam que ele foi assassinado. É fato que ele tocou numa ferida perigosa: tentou por fim a cobiça da Igreja católica pelo poder temporal, e aos escândalos envolvendo o Banco do Vaticano e o Bispo Paul Marcinkus.

Ele protagonizou o maior escândalo financeiro da história do Vaticano: a quebra do Banco Ambrosiano de Milão, ocorrida em agosto de 1982, quando o banco foi declarado insolvente pelo governo italiano, após ter sido descoberto um “rombo” de cerca de US$ 1,5 bilhão. O Vaticano possuía 16% do capital do Ambrosiano.

As investigações da falência do banco trouxeram à tona entre outras operações nebulosas, pagamentos obscuros à loja maçônica P-2, aparentemente, desvio de fundos para uso particular e ligações com a Máfia. Foram acusados formalmente Marcinkus e dois administradores, Luigi Mennini e Pellegrino Strobel.

O Vaticano deu asilo ao arcebispo Marcinkus e seus dois colaboradores, para impedir sua prisão.

O Tribunal Supremo da Itália defendeu a impossibilidade de processar o arcebispo e os dois funcionários, em virtude do Pacto Lateranense, (Tratado de Latrão celebrado em 1929, que criou o Estado do Vaticano) que em seu artigo 11 prevê que “os entes centrais da Igreja Católica estão isentos de qualquer ingerência por parte do Estado italiano”.

O Vaticano gastou cerca de US$ 100 milhões, em 1983, para ressarcir os clientes do Ambrosiano, gesto que foi interpretado pela imprensa italiana como uma confissão de responsabilidade na quebra do banco. Mais tarde, o Vaticano criou mecanismos de controle para impedir casos como esse.

Dois meses antes da declaração de quebra do banco, em 16 de junho de 1982 o corpo do presidente do Ambrosiano, Roberto Calvi, que havia fugido para Inglaterra, tinha sido encontrado enforcado sob uma ponte de Londres, no que, aparentemente, foi um suicídio. Entretanto, em 1998, o corpo foi exumado para perícia e, em 2002, “uma equipe de médicos forenses encabeçados pelo professor alemão Bernd Brinckman disse que Calvi foi assassinado em um terreno baldio perto da ponte, onde foi pendurado para simular um suicídio”.

Em 1984, Marcinkus foi nomeado como um possível cúmplice no suposto assassinato do Papa João Paulo I pelo jornalista investigativo David Yallop em seu livro Em Nome de Deus. Yallop fez acusações a respeito de um número de suspeitos associados às relações de Marcinkus com negócios escusos e envolvimento com membros da máfia e o  Banco do Vaticano, afirmando ainda que Marcinkus pode enfrentar exposição penal, ele deve ser removido de sua posição no banco.

De fato, Marcinkus, foi demitido e enviado para a Arquidiocese de Chicago em 1990 antes de se retirar para o Arizona, onde viveu como um pároco assistente até a sua morte. Assim, aos 84 anos Paul Marcinkus foi para seu túmulo com seus segredos intactos. Provavelmente, nunca serão revelados.

O Papa ao renunciar abre caminho para uma reforma radical na Igreja católica. É sintomático quando ele diz: “Quando já ninguém me escuta, Deus ainda me ouve”. Com a sua renúncia caem aqueles que tornaram o Vaticano ingovernável: a voracidade da Cúria Romana. A renúncia do papa sinaliza um futuro nada promissor para uma estrutura fortemente construída, mas que vem se deteriorando ao longo do tempo, ensejando a sua decomposição por ela mesmo, em decorrência de uma rede de intrigas, conspirações e disputas pelo poder.

O Sacro Colégio de Cardeais quando reunido para escolher o novo Papa, tanto o Colégio Cardinalício como o novo Papa, terão pela frente vários desafios e muito que decidir. O momento é propício para estabelecer os novos rumos da Igreja: manter esta Igreja centralizada, controlada pela Cúria Romana, corrompida, adulterada e ostensivamente apegada às coisas temporais; ou promover o retorno às origens doutrinárias e religiosas: a Igreja de Cristo.

O celibato sacerdotal é outra questão que prioriza decisão firme, sem protelação. A comunidade católica e a sociedade em geral, não toleram mais meias medidas protagonizadas pelos acordos milionários para acobertar padres pedófilos ou ouras perversões sexuais, como o homossexualismo. É sabido que todos esses desvios e perversões decorrem da proibição imposta ao exercício do sacerdócio pelo celibato.

A mensagem de Bento XVI, direta e sem concessões, tem repercutido com força surpreendente. Não seria este o momento de reflexão? Nada justifica no mundo atual, a existência dessa estrutura, centralizada, fortemente hierarquizada e corrompida pela disputa do poder. Essa nefasta hierarquia em nada favorece o exercício da fé cristã e ainda causa indignação aos católicos pelos desmandos que se sucedem.

O Jornal Italiano, La República na edição de 21/02, denunciou que Bento XVI antes de abandonar o trono de São Pedro, deixando-o vacante até o fim do conclave, o Papa Bento XVI pretende se reunir com os 116 cardeais que elegerão seu sucessor para expor as conclusões do inquérito sobre o escândalo Vatileaks. O documento de 300 páginas - dividido em dois capítulos e escrito pelos cardeais Julian Herranz, Jozef Tomko e Salvatore De Giorgi - traria revelações bombásticas sobre a cúria romana, que incluiriam uma rede de agenciamento de encontros homossexuais, além da existência de grupos de pressão especializados em montar e desmontar carreiras dentro da Santa Sé e em desviar recursos multimilionários do Banco do Vaticano para usufruto próprio. 

O Arcebispo emérito de Aveiro, Portugal, Dom Antonio Marcelino que já presidiu à Conferência Episcopal Portuguesa, não tem dúvidas: "apesar de ter conseguido algumas reformas significativas, o papa sentiu-se impotente ante os conflitos, manobras e até traições, que se foram levantando a seus olhos, a ponto de tolherem o seu caminho". Ainda denuncia um centralismo controlador da Cúria Romana, que até condiciona o trabalho dos bispos nos diversos países; As conferências episcopais nunca foram queridas nem amadas pelos poderosos da Cúria, afirma o prelado.

Hoje, o que existe, são duas Igrejas: a fundada Jesus Cristo, e uma outra controlada pela Cúria Romana, corrompida, adulterada e ostensivamente apegada às coisas temporais.
O novo Papa deve retomar o papel de líder espiritual e renunciar o de chefe de Estado. O ambiente político contamina a Igreja.

Bento XVI desnuda a inconsistência das esperanças materialistas e faz uma crítica serena, mas profunda, dos caminhos da Igreja. 

Ainda Cardeal Raitzinger, falando durante uma série de meditações na Via Sacra de sexta-feira santa dizia: "quanta sujeira há na igreja, e mesmo entre aqueles que, no sacerdócio, deveriam pertencer inteiramente a Cristo”. “Muita, Santo Padre, muita mesmo! Deus ajude a Igreja Católica Apostólica Romana”.

 

domingo, 24 de fevereiro de 2013

OS REPUBLICANOS HISTÓRICOS CAMPANHENSES



Tarcísio Brandão de Vilhena

Na História do Brasil, dá-se o nome de republicanas históricos às personagens que tinham aderido à causa republicana, desde antes da proclamação da República. Entre estes, incluem-se os signatários do Manifesto Republicano de 1870, os abolicionistas que também faziam campanha pela república e os demais partidários e membros dos Clubes Republicanos, nas diversas províncias do Império antes do golpe de 15 de novembro de 1889, que proclamou a República.

Em Minas, não houve campanha expressiva, antes do manifesto de 1870, o que pode ser justificado pelo estado de decadência urbana ocorrida na Província desde a devassa da Inconfidência Mineira, cuja repressão visou também inibir as ideias republicanas, obrigando os mineiros a se refugiarem no silêncio. A rebelião liberal de 1842, embora liderada por um republicano convicto como Teófilo Otoni, não oportunizou a tendência republicana. O presidente rebelado da Província, Barão de Cocais, não permitiu a inserção de tal tendência no referido movimento. Mesmo que a punição aos revoltosos de 1842 tenha sido suave e condescendente, ela refletiu sobre Minas, de forma duradoura, os prejuízos morais da derrota. O partido liberal não conseguia se impor junto ao eleitorado, sempre vencido e encurralado pelos conservadores.

Ainda assim, antes do manifesto de 1870, alguns centros urbanos mineiros se despontaram com relativo progresso, a exemplo de Juiz de Fora, Diamantina e Campanha, e tiveram oportunidade de expressar ideias republicanas por oposição ao regime monárquico brasileiro.

De fato, em 1870, republicanos Campanhenses, liderados pelo Cel. Marthiniano dos Reis Brandão já defendiam os princípios e os ideais republicanos e federativos, não só em Campanha, mas em toda a região Sul Mineira. Naquele ano, ainda sob a liderança de Marthiniano, surge em Campanha o Clube Republicano, tendo a sua frente ilustres Campanhenses cultos, idealistas e independentes, dentre os quais se destacavam o médico Dr. Francisco Honório Ferreira Brandão, filho do Cel. Martiniano, o jornalista Manoel de Oliveira Andrade, o cidadão Domingos Honório Lopes de Araújo, o Cel. Saturnino de Oliveira, o Dr. Bráulio Lion, o Cel. Marcos Coelho Neto, o Dr. João Bráulio Moinhos de Vilhena Jr., o Prof. Jonas Olinto, o Dr. José Braz Cezarino, o parlamentar Alexandre Stóckler Pinto de Menezes, o Dr. Joaquim Leonel de Rezende Alvim, o Dr. Antonio Xavier Lisboa, Pe. Francisco de Paula de Araújo Lobato, Francisco Bressane de Azevedo, o Dr. Eustáquio Garção Stockler e outros.

As reuniões do Clube Republicano eram realizadas na residência do Cel. Marthinano. Esta residência ele a adquiriu na condição de genro do Comendador Paula Ferreira, o proprietário. Marthiniano era casado com uma de suas filhas, Anna Alexandrina Ferreira Brandão, e adquiriu as partes dos demais herdeiros. Esta magnifica edificação abrigou a Escola Normal, a Prefeitura e, por último, a Faculdades Integradas Paiva de Vilhena. Lamentavelmente, foi consumida por incêndio.

Em 1880, regressa à Campanha, graduado em Farmácia, o Sr. Zoroastro de Oliveira, filho de Saturnino de Oliveira, que passa integrar o Clube Republicano, sendo escolhido, por seus pares, para ocupar o cargo de secretário do Clube. Neste mesmo ano, o clube se reúne para escolher o nome de um dos integrantes para concorrer às eleições senatorias da Província, a serem realizadas em 27 de maio. A escolha recai no Dr. Francisco Honório Ferreira Brandão.

Transcorrida a eleição, foram eleitos: o médico Campanhense Dr. Francisco Honório Ferreira Brandão, pela região Sul Mineira; Dr. João Nogueira Penido, médico de Juiz de Fora; região da Mata Mineira, Dr. Joaquim Felício dos Santos, advogado em Diamantina, pela região Norte.

Um ano antes da proclamação da República, no dia 4 de junto de 1888, cria-se em Minas Gerais o Partido Republicano Mineiro - o PRM, com objetivo de representar as ideias republicanas aos oligárquicos da elite agrária do Estado de Minas Gerais. Neste mesmo ano, funda-se na Campanha, sede administrativa da região Sul Mineira, o diretório regional do Partido Republicano Mineiro, presidido pelo o médico Dr. Francisco Honório Ferreira Brandão.

A noticia da Proclamação da República pelo o Marechal Deodoro da Fonseca foi dada aos republicanos campanheses pelo parlamentar Dr. Stockler Pindo de Menezes, campanhense residente no Rio de Janeiro. No dia 17 de novembro de 1889, mais de cem eleitores republicanos reunidos na residência do Coronel Marthiniano, todos filiados ao PRM, sob a presidência do Dr. Francisco Honório Ferreira Brandão, decidiram lavrar uma Ata, na qual se declaravam solidários à proclamação da república e ao governo provisório, instalado após a proclamação. Excluindo Ouro Preto, capital da Província, Campanha foi a primeira cidade mineira a manifestar seu júbilo e seu decidido apoio à República Brasileira.

Desgostoso com o baixo nível e com a vileza dos adversários políticos contra a sua pessoa, Dr. Brandão deixa Campanha e muda-se para o Rio. Nunca mais voltou à cidade. Assume a presidência do partido o Cel. Saturnino de Oliveira. Após o seu falecimento, seu filho, Cel. Zoroastro de Oliveira, passa presidir o partido. Em 1927, Zoroastro abandona a vida pública e entrega a direção do partido para seu irmão, o médico Dr. Jefferson de Oliveira. Em 1929, Jefferson é eleito deputado federal. O vereador Dr. Serafim Maria Paiva de Vilhena passa ocupar a presidência da Câmara e, por consequência, torna-se o Agente Executivo do município e presidente do partido. Com a revolução de 1930, os partidos políticos são todos dissolvidos, dando inicio à nova república, liderada pela Frente Liberal.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

A Paixão segundo São Mateus


A Paixão Segundo São Mateus é considerada a maior óbra de BACH e para muitos, o principio e o fim de toda música. Sempre que a escuto, me vem à memória as aulas de musica que tive com o saudoso maestro Sérgio Magnani, quando dizia da importância de Bach para música em geral. Esta portentosa óbra tornou-se acessível depois do advento do disco de longa duração o ja superado LP.
É uma óbra densa, cujo conteúdo poético e dramático, revela toda a sua complexidade e a intransponível dificuldade técnica e principalmente estilistica na sua execução; poucos são os tenores que podem interpretar com propriedade o evangelista Mateus.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As ruas da Campanha



Tarcísio Brandão de Vilhena

Situada entre morros e montanhas, no Vale da Piedade, a quase tricentenária cidade de Campanha é um verdadeiro "recanto abençoado, que resume toda a brasilidade de raiz que todos procuramos". Essa originalidade, que vem de um verdadeiro pedaço das Minas Gerais e do Brasil, só se conhece indo a Campanha.

Há geografias que se pisam e outras que se sentem, sendo essa geografia afetiva a que guia nossos desejos e nossas descobertas.

Tal qual o corpo, a cidade também se escreve, e se inscreve, em nós. Andar por suas ruas, quer de maneira apressada, quer de maneira irresponsável, desobrigação contemplativa, aguça-nos os olhares e a memória, revela-nos surpresas, suspiros e dissabores, talvez. O ponto de partida, a página que, por vezes, perdemos, apagamos da memória, pode ser uma rua da infância, passeios familiares ou outro local. Seja como for, é nas imagens e em outras reminiscências, que nos lembramos de um passado, quase sempre, distante.

Porém, a geografia a que nos referimos, mais do que física, está expressa e sentida na alma de cada um de nós.

Assim, as ruas de Campanha desenham também outros contornos, avessos às suas identidades; traçados que nos guiam a outros destinos, e que só os alcançaremos através de uma memória afetiva.

O Morro do Claudionor, de onde se percebe o Vale da Piedade, a partir do qual a cidade se desenvolveu, mais ao longe a Serra das Águas e o morro do Coroado, enfeitam esse cenário de ruas da cidade de Campanha.

As ruas têm nomes, mas não é o nome que as distingue. O que as diferencia de forma muito mais marcante é o “clima”, as feições que cada uma das ruas pelas quais se passa, principalmente, na infância e na juventude, e que se espalham, para sempre, em detalhes e decorrentes lembranças.

As ruas nos deixam como herança seu próprio ritmo, no compasso dos nossos passos, das brincadeiras de fim de tarde nas suas calçadas sossegadas, dos olhares trocados em silêncio com aquela menina bonita que morava na outra rua.

Deve ter sido por essas e por outras que Mario Quintana celebrizou seu poema “mapa da cidade”, falando das ruas “que não andei (e há uma rua encantada que nem em sonhos sonhei...)”. Pois, o mapa de cada cidade é delineado pelas veias e artérias que as ruas desenham em seu contexto e muitas delas escapam por vertentes e deságuam em território ignorado.

No entanto, aquelas ruas que compõem os nossos trajetos possuem papel destacado no relato do que já vivemos.

Afora isso, nos tornamos íntimos ao nos referirmos às ruas. Citamo-las pelos nomes de batismo como se fossem personagens da nossa família: rua Direita, rua do Bonde, rua do Fogo, rua da Forca, e assim por diante. Intimismo que as ruas proporcionam pela singularidade de estarem inseridas no cotidiano de todos como parte integrante da paisagem.

E de lembrança em lembrança, ao me debruçar sobre o teclado do computador para redigir essa crônica, vi desfilarem frente aos meus olhos algumas ruas especiais. Ruas de Campanha e de outros tantos lugares em que morei.

As preferidas, entretanto, continuam sendo aquelas da infância, onde brinquei. Porém, me permito destacar outras tantas de outras épocas que, também, me encantaram, e que, ainda, continuam a caminhar comigo, como a rua Alice, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, que traz à memória momentos alegres e inesquecíveis.

De passos é feita a caminhada, e por entre as ruas que passamos ecoam os sons das engrenagens de que é feita a história de vida de cada um, em que há sempre uma rua a assinalar o melhor momento e a eleger a mais expressiva recordação.




 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

OS FENÔMENOS ASIÁTICOS


Tarcísio Brandão de Vilhena

Muito se tem falado ultimamente sobre assimilação à cultura ocidental pelos os Asiáticos. Na música erudita sempre surgem instrumentistas que alcançam o estrelato. Três são os paises que mais contribuem ao surgimento de pianista ou violinistas que se dedicam à interpretação da musica erudita ocidental. A China é o país com consideravel número de instrumentistas, seguida pelo Japão e Coréa do Sul, cuja orquestra Filarmônica de Seul alcançou renome internacional. Alguns maestros asiáticos chegaram ao estrelato como o Sul Coreano, Myung-Whom Cung, maestro titular da Filarmônica de Seul, dono de uma técnica impecável e de notável sensibilidade na condução de partituras dificeis como as de Mahler, cuja leitura ele a faz levando-se em conta todas as matizes da musica, procurando interpretá-la tendo-se em conta aquilo que o compositor se dispôs expressar.
Entre os vários instrumentista Asiáticos, destaco tês pianistas Chineses que alcançaram fama internacional: Youndi Li, Lang Lang e Yuja Wan.
Yundi Li é o mais virtuoso dos três e com uma extraordinária técnica. Ele não auto se promove como Lang Lang o faz, resultado é uma musica de melhor qualidade, reconhecida por quem realmente importa e entende. Lang Lang, o que está mais em evidência, não sacraliza a música clássica. Veste cores fortes nos concertos e lançou até um tênis com seu nome. Viaja em seu jato particular. É a ponta de lança de um processo musical muito mais amplo pela expansão da influência chinesa no mundo do que pelos os seus méritos musicais.

Na verdade, esses interpretes asiáticos estão longe de alcançarem o refinamento de Marta Argerich e de Nelson Freire, não se falando no extraordinário refinamento e no alto rigor técnico de Maurizio Pollini. interprete extremamente intelectual.

Só um país com 1,3 bilhão de habitantes poderia ter 100 milhões de estudantes de música – e de fãs potenciais do compatriota Lang Lang, venerado pelos adolescentes chineses, é, aos 29 anos, um dos pianistas mais bem remunerado do mundo.
Aos olhos do Ocidente, Lang Lang estreou em 1997, ao gravar para o selo independente norte-americano Telarc. Logo foi contratado pela Deutsche Grammophon e, há pouco mais de um ano, transferiu-se para a Sony, o que lhe rendeu luvas de 3 milhões de dólares.
Lang Lang é uma espécie de bilhete premiado. Se 1% da população chinesa comprar um de seus CDs, o investimento estará pago pelas próximas décadas, segundo especialistas. Essa expectativa não é exagerada: ela se baseia no fato de que, na China, a música clássica tem uma imagem de juventude, parecida com a do pop no resto do mundo.
Lang Lang já tem seu próprio modelo de tênis Adidas, em tiragem especial de 100 mil pares. Nas apresentações, ele veste paletós acintosamente acetinados, de tons vivíssimos. Em resumo: é o que o público chinês quer consumir. Martha Argerich e Nelson Freire jamais gravariam, como fez Lang Lang, o vídeo, visto por 1,7 milhão de pessoas no YouTube, em que toca um trecho do Concerto Nº 3 de Prokofiev – justamente a peça que celebrizou a pianista argentina. O músico intercala sua performance com gestos de kung fu inspirados nos jogos de videogam. É hilário, engraçado, vivo. Lang Lang adora a música clássica, mas não a SACRALIZA.
Ele toca como um ginasta, uma máquina. Aliás, excetuando-se Yundi Li, dono de uma apurada técnica e de extraordinário vistuosismo - essa é uma caracterista dos pianista asiáticos, sejam eles os Chineses ou Sul Coreanos. Yuja Wan celerizou-se pela velocidade, é a pianista que consegue o maior numero de notas por segundo. Faltam-lhes, entretanto, sensibilidade na interpretação de obras como principalmente as de Chopin que exige alem de uma apurada técnica, necessita de alma, coisa que, ao que parece, não compõe a cultura asiática..
Tecnicamente, Lang Lang é irrepreensível, como tambem Yuja Wang o é. O problema está no que os críticos identificam como ingenuidade artística. Ambos entende a música clássica ocidental como uma técnica. E isso, provalvelmente, tem a ver com a história.
Pesquisando, vim a saber que o jesuíta italiano Matteo Ricci desembarcou em Pequim no ano de 1601, disposto a iniciar a cristianização da China, trazia um cravo de presente para o imperador Wanli, da dinastia Ming. Ricci esperou nove anos até ser recebido na Cidade Imperial. Ao ver o desconhecido instrumento, o soberano encantou-se e quis ter aulas. Outros jesuítas instalaram órgãos de igreja por lá. Era o primeiro contato dos chineses com a música clássica ocidental. No século seguinte, o imperador Kangxi aprendeu a tocar cravo e fez publicar um manual com ensinamentos ocidentais e chineses lado a lado. Mais tarde, o imperador Qianlong chegou a ter seu exército de eunucos cantando como os "castrati italianos".
Porem, o impulso decisivo para o desenvolvimento da música clássica na China foi a chegada a Xangai de refugiados russos, entre eles czaristas e judeus, expulsos pela Revolução de 1917. No ano seguinte, aportou na cidade o pianista e maestro italiano Mario Paci, que, doente, lá permaneceu e acabou montando a primeira orquestra de música ocidental da China. Décadas depois, a expansão do gênero foi interrompida, no único episódio histórico em que o piano foi banido de um país – no caso, pela Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung, que, entre 1966 e 1976, destruiu instrumentos e partituras. Dezenas de professores dos conservatórios se suicidaram e sinfonias ocidentais só voltaram a ser executadas após a morte de Mao.
De lá para cá, o piano paulatinamente deixou de ser um “corpo estranho”. Hoje, é responsável pelo “grande salto” do país na área musical. O maior boom do instrumento no mundo se deu justamente via Lang Lang. Quase tudo na China tem dimensões monumentais, e a música clássica não é mais exceção. O Conservatório de Sichuan, em Chengdu, que possui 800 salas para estudo de piano, está concluindo uma ambiciosa ampliação, que o deixará com 10 mil. É um dos nove megaconservatórios do país, para onde se encaminham os aspirantes a Lang Lang. Seu instrumento está em primeiro lugar na preferência dos estudantes chineses, seguido por violino e violoncelo – estima-se em 50 milhões o total de crianças e adolescentes martelando diariamente pianos de armário. Se isso garante um mercado gigante, representa também uma concorrência terrível. Desde muito cedo, Lang Lang mentalizou que precisaria ser “o número 1”. A família pobre investiu o que tinha e o que não tinha. O pai largou o emprego e a mãe sustentou marido e filho em Pequim com um salário de telefonista em Shenyang.
"É não apenas curioso mas também sintomático que a educação musical chinesa seja famosa pelo método Suzuki, de treinamento mecânico baseado em repetição e memorização".
Quando se fixou nos Estados Unidos, Lang Lang foi criticado por ter técnica demais e sentimento de menos – ouviu isso nas aulas do pianista e regente Daniel Barenboim. Resultado: "o chinês logo se bandeou para os maneirismos exagerados. "Tornou-se over". "Em vez de uma lágrima, chora convulsivamente ao piano. Em vez de um meio sorriso, estoura em gargalhadas, como se o público precisasse de doses exageradas de emoção e virtuosismo para se interessar pelo que rola no palco". “Quero reproduzir a sensação do balanço de Tiger Woods e da enterrada de Michael Jordan”, explica. De que ele sabe tocar piano, ninguém duvida. Que ele e Yuja Wan têm uma técnica fenomenal, superlativa, também é óbvio. Falta no caso de Lang Lang, controlar os excessos. Mas, se justamente os excessos – tanto ao piano quanto no modo de se vestirem.
Yuja Wang com decotes generosos e saias curtissimas exibindo as pernas. Consta que Yuja ao se apresntar com um vestido curtissimo, como solista do concerto nº II para Piano e Orquestra de Rachmaninov, provocou a reação dos musicos sob alegação que a sua vestimenta prejudicava a concentração dos músicos.
Se as maneiras de Lang Lang constituem a razão de seu sucesso planetário, não seria o caso de nos perguntarmos o que sua maneira de tocar diz sobre nós mesmos”?
Ela indicaria que somos parte de uma sociedade do espetáculo, em que o show não pode parar – e as novíssimas atrações precisam se suceder vertiginosamente, cada uma mais extravagante e bizarra que a anterior. Engrenagem perversa, em que tudo se faz para chamar a atenção de nossos ouvidos. Em sua precoce autobiografia, Lang Lang diz que, em 2000, aos 18 anos, teve uma das maiores emoções de sua vida: “Eu faria os concertos em seguida às apresentações de Evgeny Kissin, um pianista russo dez anos mais velho, que eu adorava desde garotinho. Kissin ocupava a sala de estudos próxima à minha e fiquei empolgado por estar perto do homem que admirava tanto”. Mas Kissin pertence a formidável escola Russa só isso ja é o bastante.