sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

As ruas da Campanha



Tarcísio Brandão de Vilhena

Situada entre morros e montanhas, no Vale da Piedade, a quase tricentenária cidade de Campanha é um verdadeiro "recanto abençoado, que resume toda a brasilidade de raiz que todos procuramos". Essa originalidade, que vem de um verdadeiro pedaço das Minas Gerais e do Brasil, só se conhece indo a Campanha.

Há geografias que se pisam e outras que se sentem, sendo essa geografia afetiva a que guia nossos desejos e nossas descobertas.

Tal qual o corpo, a cidade também se escreve, e se inscreve, em nós. Andar por suas ruas, quer de maneira apressada, quer de maneira irresponsável, desobrigação contemplativa, aguça-nos os olhares e a memória, revela-nos surpresas, suspiros e dissabores, talvez. O ponto de partida, a página que, por vezes, perdemos, apagamos da memória, pode ser uma rua da infância, passeios familiares ou outro local. Seja como for, é nas imagens e em outras reminiscências, que nos lembramos de um passado, quase sempre, distante.

Porém, a geografia a que nos referimos, mais do que física, está expressa e sentida na alma de cada um de nós.

Assim, as ruas de Campanha desenham também outros contornos, avessos às suas identidades; traçados que nos guiam a outros destinos, e que só os alcançaremos através de uma memória afetiva.

O Morro do Claudionor, de onde se percebe o Vale da Piedade, a partir do qual a cidade se desenvolveu, mais ao longe a Serra das Águas e o morro do Coroado, enfeitam esse cenário de ruas da cidade de Campanha.

As ruas têm nomes, mas não é o nome que as distingue. O que as diferencia de forma muito mais marcante é o “clima”, as feições que cada uma das ruas pelas quais se passa, principalmente, na infância e na juventude, e que se espalham, para sempre, em detalhes e decorrentes lembranças.

As ruas nos deixam como herança seu próprio ritmo, no compasso dos nossos passos, das brincadeiras de fim de tarde nas suas calçadas sossegadas, dos olhares trocados em silêncio com aquela menina bonita que morava na outra rua.

Deve ter sido por essas e por outras que Mario Quintana celebrizou seu poema “mapa da cidade”, falando das ruas “que não andei (e há uma rua encantada que nem em sonhos sonhei...)”. Pois, o mapa de cada cidade é delineado pelas veias e artérias que as ruas desenham em seu contexto e muitas delas escapam por vertentes e deságuam em território ignorado.

No entanto, aquelas ruas que compõem os nossos trajetos possuem papel destacado no relato do que já vivemos.

Afora isso, nos tornamos íntimos ao nos referirmos às ruas. Citamo-las pelos nomes de batismo como se fossem personagens da nossa família: rua Direita, rua do Bonde, rua do Fogo, rua da Forca, e assim por diante. Intimismo que as ruas proporcionam pela singularidade de estarem inseridas no cotidiano de todos como parte integrante da paisagem.

E de lembrança em lembrança, ao me debruçar sobre o teclado do computador para redigir essa crônica, vi desfilarem frente aos meus olhos algumas ruas especiais. Ruas de Campanha e de outros tantos lugares em que morei.

As preferidas, entretanto, continuam sendo aquelas da infância, onde brinquei. Porém, me permito destacar outras tantas de outras épocas que, também, me encantaram, e que, ainda, continuam a caminhar comigo, como a rua Alice, no bairro das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, que traz à memória momentos alegres e inesquecíveis.

De passos é feita a caminhada, e por entre as ruas que passamos ecoam os sons das engrenagens de que é feita a história de vida de cada um, em que há sempre uma rua a assinalar o melhor momento e a eleger a mais expressiva recordação.




 

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